OPEN ME. Esse é o bilhetinho que Oliver Tate, um garoto de uma cidadezinha litorânea do País de Gales, recebe de um colega de sala nos primeiros momentos do filme Submarino, que vi ontem na Mostra de Cinema de SP.
Além de ser a porta de entrada para um dos melhores filmes que vi neste ano, o bilhete, à moda dos EAT ME e DRINK ME de Alice no País das Maravilhas, projeta aquela fase da adolescência comumente conhecida como "autodescobrimento". Claro, Oliver tem 15 anos, não sabe ainda como se portar frente a seus amigos de classe, não tem certeza se é certo ou não praticar bullying contra a menina gordinha da sala, tem pais excêntricos e, claro, começa a gostar de uma menina que ele está certo de que lhe causará problemas, Jordana Bevan.
E Jordana tem uma mania realmente muito perigosa: ela é piromaníaca. Seria a metáfora ou a deixa perfeita para o conselho: "Oliver, não vá brincar com fogo", mas não chega nem perto disso. Vai muito além e de maneira mais profunda. A namorada funciona como contraponto necessário ao desenvolvimento do personagem principal, completando o que lhe sempre faltou.
O nome do filme não é gratuito. O pai de Oliver, deprimido desde os 15 anos, é um acadêmico frustrado que estuda e ensina um assunto que só é interessante para quem é "PhD em peixes". Ele sabe tudo sobre as camadas mais profundas do oceano, sobre as espécies mais exóticas de peixes e consegue explicar, em linguagem enciclopédica, por que ninguém conseguiria viver a 9,5 km de profundidade: fundo demais, a consequência de tal experiência seria a auto-implosão. E Oliver nunca se esqueceu dessa palestra proferida pelo seu pai a um grupo de alunos do primeiro grau.
As referências ao mar, ao fundo do mar, e às profundezas mais fatais e misteriosas saltam pelo filme a todo o momento. Desde a decoração do quarto de Oliver, com detalhes como a roupa de cama toda ilustrada com motivos submarinos até o capacete de escafandro bem no meio da sala e o enorme aquário iluminando a cozinha. Mais indiretamente, a profundeza submarina é sugerida quando Oliver empurra a menina gordinha no lago e ela desaperece da escola, ou quando Oliver, triste com a sua vida, se afunda na piscina de seu colégio. E, em um nível maior de figuração, na profunda depressão do pai, que escolheu uma casa bem no alto de uma colina e longe do mar, para morar. Ou na enciclopédia onde Oliver lê sobre o ultrassom, que, usando a propagação sonora de um sonar ou aparelho similar, consegue detectar e navegar onde de outro modo seria impossível.
Seguindo o princípio ativo do sonar, como nos explica Oliver, a emissão de ondas mecânicas, ligada a um receptor de som, se propaga na água, bate no fundo dos oceanos, e determina distâncias e velocidades de objetos variados. A figuração do filme sugere que, no caso do amor, passamos todos indetectáveis, intransmissíveis. Não há sonar que consiga mensurar e analisar nossos comportamentos debaixo d'água, se contarmos esse estado submarino como condição de entrega amorosa. Não há como prever ou controlar as próximas ações e estamos todos nadando no escuro.
Nesse processo de autoconhecimento juvenil, Oliver descobre que certas coisas não têm explicação racional ou não são encontradas na enciclopédia ou nas palestras do seu pai. E a figura de Jordana, vidrada por fogo e por fogos de artifício, e representada de maneira viva pela cor vermelha, também não lhe responde nada, mas ajuda o menino a sobreviver debaixo d'água.
Na imagem final do filme, aliás, muito sensível, Oliver e Jordana caminham lado a lado em direção ao desconhecido e ao fundo do mar (aqui em sentido literal), como se pretendessem atingir as tais camadas mais profundas do oceano. Passo a passo, descobrem uma aliança inédita que até então não tinham descoberto: estão juntos e dispostos a enfrentar qualquer risco sob os sete mares.
27.10.11
18.10.11
Gilad Shalit
Tel Nof. Quase ninguém sabia o que o termo fazia entre os trending topics mundiais do Twitter nesta terça-feira (18). Mais do que a hashtag #freegilad ou #freeshalit, que rodou o Twitter entre as comunidades judaicas por um bom tempo, foi a base aérea israelense localizada na cidade de Rehovot que entrou para os assuntos mais discutidos da rede. E naqueles primeiros instantes da manhã em Israel (e um pouco mais tarde no Brasil) o soldado Gilad Shalit desmaiava no helicóptero que o transportava da fronteira de Gaza até a mencionada base. Debilitado, o sargento First Class do exército israelense voltava para casa.
Foram exatos 1941 dias em cativeiro. Cinco anos. Sem contato com ninguém que falasse a sua língua, sem luz, no escuro. Sofrendo maus tratos nos primeiros períodos de prisão. Sem óculos, que lhe foram retirados (ou quebrados) em junho de 2006 pelos palestinos. Mesmo que estivesse em um ambiente com um mínimo de luz, ele não poderia ver nada. A primeira coisa que recebeu foi um par de óculos. Gilad ficou sem nenhum tipo de cuidado médico por todo esse tempo. Zero. Nada.
Para quem é goy, a comoção em torno do retorno de Gilad pode soar exagerada. Mas para a nação israelense e para a judiaria mundial espalhada pela diáspora é algo a ser comemorado. O Talmude prescreve que aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro. Quem assistiu ao filme A Lista de Schindler deve se lembrar da frase, que serve de epígrafe à produção.
Os cinco anos de Gilad nas mãos dos palestinos foram acompanhados (e jamais esquecidos) com dor, saudade, preocupação e constantes orações e esforços para que fosse libertado o quanto antes. Entraves dos lados israelense e palestino impossibilitaram esse retorno antes - para se ter uma ideia, o processo todo foi tão surreal que de uma exigência inicial de apenas dezenas de terroristas a serem libertados, o número final girou em torno de mil.
A figura de Gilad, com dupla cidadania (israelense e francesa), é, a meu ver, o grande circuito condutor de um dia a não ser esquecido na história desse país. O garoto sempre foi fraquinho e, apesar de seu biotipo inadequado para a ação, preferiu servir nas unidades de combate. Diferentemente da imagem do sabra, aquele judeu pós-Guerra dos Seis Dias, que buscava se desvencilhar do estereótipo judaico de menino magro, fraquinho, ruim da vista, que gosta de ler em vez de pegar em armas, Gilad era um anti-herói, um anti-sabra.
O filho queridinho de toda mamãe Portnoy naturalmente comoveria as mães judias de Israel e de todo o mundo. O que ele foi fazer no exército, oy vey? Tinha que ficar aqui em casa comigo, fazendo faculdade de Psicologia e, quem sabe, se casando com uma Natalie Portman ou com uma Mila Kunis. Não, Mila Kunis não pode. Ela é doida.
Não só as mães, mas a judiaria criou uma relação muito intensa e à distância com o menino Gilad. Tinham lhe tirado o par de óculos. E estava no escuro. Um irmão menor em perigo.
Fica difícil definir o status da identidade judia depois de Gilad Shalit. Não temos mais aquele soldado fortão que fica atrás de Bibi Netanyahu sempre a postos com óculos escuros e em comunicação constante com os mais altos esquadrões do exército israelense. Mas temos Gilad, um "menino de ouro" que ama o seu país e seu povo e os defende. E nunca perdeu a esperança de que, no escuro, sairia dali. Uma verdadeira lição judaica à moda antiga.
Foram exatos 1941 dias em cativeiro. Cinco anos. Sem contato com ninguém que falasse a sua língua, sem luz, no escuro. Sofrendo maus tratos nos primeiros períodos de prisão. Sem óculos, que lhe foram retirados (ou quebrados) em junho de 2006 pelos palestinos. Mesmo que estivesse em um ambiente com um mínimo de luz, ele não poderia ver nada. A primeira coisa que recebeu foi um par de óculos. Gilad ficou sem nenhum tipo de cuidado médico por todo esse tempo. Zero. Nada.
Para quem é goy, a comoção em torno do retorno de Gilad pode soar exagerada. Mas para a nação israelense e para a judiaria mundial espalhada pela diáspora é algo a ser comemorado. O Talmude prescreve que aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro. Quem assistiu ao filme A Lista de Schindler deve se lembrar da frase, que serve de epígrafe à produção.
Os cinco anos de Gilad nas mãos dos palestinos foram acompanhados (e jamais esquecidos) com dor, saudade, preocupação e constantes orações e esforços para que fosse libertado o quanto antes. Entraves dos lados israelense e palestino impossibilitaram esse retorno antes - para se ter uma ideia, o processo todo foi tão surreal que de uma exigência inicial de apenas dezenas de terroristas a serem libertados, o número final girou em torno de mil.
A figura de Gilad, com dupla cidadania (israelense e francesa), é, a meu ver, o grande circuito condutor de um dia a não ser esquecido na história desse país. O garoto sempre foi fraquinho e, apesar de seu biotipo inadequado para a ação, preferiu servir nas unidades de combate. Diferentemente da imagem do sabra, aquele judeu pós-Guerra dos Seis Dias, que buscava se desvencilhar do estereótipo judaico de menino magro, fraquinho, ruim da vista, que gosta de ler em vez de pegar em armas, Gilad era um anti-herói, um anti-sabra.
O filho queridinho de toda mamãe Portnoy naturalmente comoveria as mães judias de Israel e de todo o mundo. O que ele foi fazer no exército, oy vey? Tinha que ficar aqui em casa comigo, fazendo faculdade de Psicologia e, quem sabe, se casando com uma Natalie Portman ou com uma Mila Kunis. Não, Mila Kunis não pode. Ela é doida.
Não só as mães, mas a judiaria criou uma relação muito intensa e à distância com o menino Gilad. Tinham lhe tirado o par de óculos. E estava no escuro. Um irmão menor em perigo.
Fica difícil definir o status da identidade judia depois de Gilad Shalit. Não temos mais aquele soldado fortão que fica atrás de Bibi Netanyahu sempre a postos com óculos escuros e em comunicação constante com os mais altos esquadrões do exército israelense. Mas temos Gilad, um "menino de ouro" que ama o seu país e seu povo e os defende. E nunca perdeu a esperança de que, no escuro, sairia dali. Uma verdadeira lição judaica à moda antiga.
16.10.11
Aujourd'hui maman est morte
Meu irmão teve um infarto na sexta-feira. Ou na quinta. Não sei. Quem me comunicou foi minha mãe, de maneira casual, passado algum tempo do ocorrido. Reagi da mesma maneira que o comunicado: naturalmente, sem que isso transformasse alguma coisa do dia.
Claro que senti o impacto da notícia. Meu irmão tem apenas 35 anos e não ignoro os riscos de um infarto tão cedo. Pensei nisso, perguntei para a minha mãe se estava tudo bem agora e ela me disse que ela já tinha até ido comprar alguns truques de mágica. Meu irmão é mágico. Sem metáfora, por mais que o caso sugira.
Camus escreve nas primeiras linhas de O Estrangeiro que "hoje mamãe morreu. Ou ontem. Não sei. Recebi um telegrama do asilo: mãe morta. Enterro amanhã". Meursault, um argelino que depois vem a matar um árabe e se vê diante do absurdo do que é a nossa existência, começa o livro com uma afirmação fria, refletindo a maneira como ele aniquila o tal árabe. Estamos diante de um relato irracional, de um louco, ou de alguém que não sabe mais como reagir aos fatos de sua vida, tenham eles o peso da morte materna ou do assassinato por suas próprias mãos.
Estou longe disso felizmente. O infarto do meu irmão reflete uma política familiar, que aprendi desde a mais tenra idade. Vivemos (aqui, meu pai se dirigindo à sua pequena família) em um mundo onde tudo é possível, as coisas mais aterradoras e devemos estar preparados pra ele todo dia, todo momento. É, na sabedoria popular, ficar sempre com o pé atrás: na hora do golpe, você não cai, sua base está ali no pé traseiro que te dá sustentação, poderia ensinar o professor de judô.
Vivi poucas tragédias pessoais, mas sempre encarei com uma suposta serenidade de causar inveja a Dalai Lama. É como repetir o mantra "serenity now" de George Costanza em Seinfeld. Apesar de refletir, como disse, uma tranquilidade e um espírito superior, não é nada disto. Nem é a frieza de Mersault. É só uma estratégia, válida ou não, de defesa contra os danos que estamos fadados a superar, desde o momento que nos damos conta, pela primeira vez, do telegrama que diz "mãe morta, enterro amanhã".
Meu pai, louco conhecedor das histórias mais bizarras da Segunda Guerra, nos preparou, a mim e a meu irmão recém-infartado, como se vivêssemos em um pequeno campo de concentração em que tudo de ruim pode acontecer e provavelmente vai acontecer mesmo. Não só a morte de pessoas queridas, mas as doenças, as quedas, os maus tratos sociais.
Já chorei, sim. Já sofri muito até por pequenas derrotas dessa vida. Mas sempre estive preparado para todos esses momentos, sempre prevendo que, mais dia menos dia, eles iriam se suceder. E os enfrentei com a consciência de que ali me despedia de mais um mal. Hora de esperar pelo próximo.
O tom do post pode parecer triste, mas afirmo que não é nem estou deprimido de novo. Só um relato, mais ou menos frio, do que aconteceu com mais um pequeno caso da família Blumenthal. Que vive de mágica. Com e sem metáfora.
ps: a cena acima é do filme Stardust Memories.
Claro que senti o impacto da notícia. Meu irmão tem apenas 35 anos e não ignoro os riscos de um infarto tão cedo. Pensei nisso, perguntei para a minha mãe se estava tudo bem agora e ela me disse que ela já tinha até ido comprar alguns truques de mágica. Meu irmão é mágico. Sem metáfora, por mais que o caso sugira.
Camus escreve nas primeiras linhas de O Estrangeiro que "hoje mamãe morreu. Ou ontem. Não sei. Recebi um telegrama do asilo: mãe morta. Enterro amanhã". Meursault, um argelino que depois vem a matar um árabe e se vê diante do absurdo do que é a nossa existência, começa o livro com uma afirmação fria, refletindo a maneira como ele aniquila o tal árabe. Estamos diante de um relato irracional, de um louco, ou de alguém que não sabe mais como reagir aos fatos de sua vida, tenham eles o peso da morte materna ou do assassinato por suas próprias mãos.
Estou longe disso felizmente. O infarto do meu irmão reflete uma política familiar, que aprendi desde a mais tenra idade. Vivemos (aqui, meu pai se dirigindo à sua pequena família) em um mundo onde tudo é possível, as coisas mais aterradoras e devemos estar preparados pra ele todo dia, todo momento. É, na sabedoria popular, ficar sempre com o pé atrás: na hora do golpe, você não cai, sua base está ali no pé traseiro que te dá sustentação, poderia ensinar o professor de judô.
Vivi poucas tragédias pessoais, mas sempre encarei com uma suposta serenidade de causar inveja a Dalai Lama. É como repetir o mantra "serenity now" de George Costanza em Seinfeld. Apesar de refletir, como disse, uma tranquilidade e um espírito superior, não é nada disto. Nem é a frieza de Mersault. É só uma estratégia, válida ou não, de defesa contra os danos que estamos fadados a superar, desde o momento que nos damos conta, pela primeira vez, do telegrama que diz "mãe morta, enterro amanhã".
Meu pai, louco conhecedor das histórias mais bizarras da Segunda Guerra, nos preparou, a mim e a meu irmão recém-infartado, como se vivêssemos em um pequeno campo de concentração em que tudo de ruim pode acontecer e provavelmente vai acontecer mesmo. Não só a morte de pessoas queridas, mas as doenças, as quedas, os maus tratos sociais.
Já chorei, sim. Já sofri muito até por pequenas derrotas dessa vida. Mas sempre estive preparado para todos esses momentos, sempre prevendo que, mais dia menos dia, eles iriam se suceder. E os enfrentei com a consciência de que ali me despedia de mais um mal. Hora de esperar pelo próximo.
O tom do post pode parecer triste, mas afirmo que não é nem estou deprimido de novo. Só um relato, mais ou menos frio, do que aconteceu com mais um pequeno caso da família Blumenthal. Que vive de mágica. Com e sem metáfora.
ps: a cena acima é do filme Stardust Memories.
10.10.11
Trabalhar Cansa
Quando Roman Polanski adaptou a sua versão de O Bebê de Rosemary para o cinema entre 1967 e 68, o terror psicológico ainda não era um gênero bem definido. Até aquele momento, poucos filmes tinham obtido destaque e recebido essa definição. Repulsa ao Sexo, do próprio Polanski, tinha criado uma história nos moldes "assombração ou loucura?", mas ainda estava longe de ter uma história amarrada como a de Rosemary. Dario Argento, Cronenberg, Brian de Palma e até Kubrick viriam depois consagrar o gênero com filmes como Suspiria e, claro, O Iluminado.
E a primeira comparação óbvia com Trabalhar Cansa, longa-metragem brasileiro em cartaz em São Paulo, é com Polanski.
Cinematograficamente, o filme de Marco Dutra e Juliana Rojas é uma aula bem executada de como reproduzir, com cenários paulistanos, um thriller psicológico clássico em versão 2.0.
Aqui, uma família de classe média paulistana decide investir suas economias em um mercadinho. O lugar é amaldiçoado, cheira a podridão e esconde um passado que os vizinhos temem em revelar. Mais ou menos como a inquilina anterior de O Inquilino, de Polanski. Que gente vivia ali?
Sabemos que o marido acabou de ficar desempregado e luta contra a sua baixa autoestima (a mulher o chama de "um bosta" em determinado momento) para suportar viver em um mundo de dinâmicas de grupo boçais em que um perfil como o seu é facilmente excluído. A mulher é a figura que aposta tudo no mercado: conversa com a corretora, com o proprietário, com o marido e aluga o local. Banca as contas, se banca, mas não lida bem com as atitudes suspeitas de seu empregado nem com os barulhos que ouve na escuridão, quando está sozinha ali antes de fechar.
Claro que o mercado está amaldiçoado e o diabo se concretiza na garra peluda que Helena encontra na parede. Em Polanski, temos a presença das paredes (em Rosemary e no Inquilino) como portais para uma outra dimensão, mais primitiva e bruta. O contato direto com o demoníaco que vive não só dentro de nossas casas (ou no mercadinho que compramos pra gente) mas em nossas cabeças.
O filme é todo pontuado com imagens que sugerem explicitamente os negros e a escravidão. A casa de Helena e de Otávio tem estátuas africanas decorando a sala e a cozinha. A filha pequena deles encena uma peça cujo tema principal é a libertação dos escravos no Brasil. A empregada, claro, é negra e no mercadinho, durante as arrumações iniciais, Helena e Otávio encontraram correntes e grilhões que parecem ter surgido da época pré-princesa Isabel.
Não sei se essas imagens todas, jogadas na cara do espectador como se gritassem "olhem, estou aqui, prestem atenção em mim", servem como uma figuração para algo maior, para um sentido obscuro da obra que não sei se consigo ler agora. Precisaria rever o filme. Mas não duvido que haja uma estranha e bizarra associação entre os nossos tempos e a escravidão. O brasileiro ordinário, comum, chão, classe média que contrata sua empregada por menos de um salário mínimo, que tem lá suas estátuas africanas decorando a sala, mas que não sabe como lidar com a garra de um animal que surge detrás de sua parede. Com a corrente enorme que servia para prender um possível trabalhador-escravo que empilhava frutas no mercadinho do dono anterior. Com a empregada negra que, dia após dia, substitui a função da mãe em acompanhar a filha. Chega até a montar a árvore de Natal sem a presença da mãe.
São hipóteses que não sei se valem, pois não encontrei material o suficiente para provar qualquer linha de raciocínio desse tipo. Mas são sugestões válidas. O filme, entretato, me parece ter outra relação que faz contato direto com a realidade classe média que todos nós vivemos sem perceber: a necessidade de entrarmos em contato com o primitivo. Helena, assim que encontra a garra peluda escondida atrás da parede, leva para casa e se tranca no quarto. Tal qual G.H. no romance de Clarice Lispector, que busca essa experiência extra-sensorial no quarto de sua antiga empregada, onde, na parede, ela fazia desenhos primitivos. E a questão da barata, claro, quando G.H. come a barata, "a fauna alada" nas palavras da protagonista. Ou, para citar outra obra da autora, no conto "Amor", em que a dona de casa busca seu escapismo no jardim botânico. Ou no olhar do búfalo no conto homônimo - aliás, voltando ao filme, no museu de bichos empalhados, Otávio se depara com uma visão bem parecedia com a do olhar do búfalo.
O sangue, mais espesso que o normal e tendendo ao preto, que escorre do nariz de Helena enquanto a sua cunhada grita imitando um morcego é a real manifestação do demoníaco na família. É a maneira como a nossa cabeça atormentada mais gosta de se expressar, causando choque e comoção daqueles "entes queridos" que estão em sua casa para celebrar o nascimento de Cristo.
Trabalhar Cansa é uma produção que tem um único ponto falho: a atuação da protagonista. Me parece que Helena Albergaria (que desconheço, admito) é aquela atriz de teatro que, quando se vê diante de uma câmera, se perde e se despedaça em atuações ultradramáticas para um público que não quer saber de exageros da dramaturgia. Não funciona para cinema. Mas todo o resto, do enredo muito bem amarrado ao clima constante de terror, é uma resposta àqueles que dizem que o cinema nacional está aquém do cinema argentino - essa discussão eu vejo cada vez mais e me irrita. Trabalhar Cansa é um dos grandes filmes deste 2011.
E a primeira comparação óbvia com Trabalhar Cansa, longa-metragem brasileiro em cartaz em São Paulo, é com Polanski.
Cinematograficamente, o filme de Marco Dutra e Juliana Rojas é uma aula bem executada de como reproduzir, com cenários paulistanos, um thriller psicológico clássico em versão 2.0.
Aqui, uma família de classe média paulistana decide investir suas economias em um mercadinho. O lugar é amaldiçoado, cheira a podridão e esconde um passado que os vizinhos temem em revelar. Mais ou menos como a inquilina anterior de O Inquilino, de Polanski. Que gente vivia ali?
Sabemos que o marido acabou de ficar desempregado e luta contra a sua baixa autoestima (a mulher o chama de "um bosta" em determinado momento) para suportar viver em um mundo de dinâmicas de grupo boçais em que um perfil como o seu é facilmente excluído. A mulher é a figura que aposta tudo no mercado: conversa com a corretora, com o proprietário, com o marido e aluga o local. Banca as contas, se banca, mas não lida bem com as atitudes suspeitas de seu empregado nem com os barulhos que ouve na escuridão, quando está sozinha ali antes de fechar.
Claro que o mercado está amaldiçoado e o diabo se concretiza na garra peluda que Helena encontra na parede. Em Polanski, temos a presença das paredes (em Rosemary e no Inquilino) como portais para uma outra dimensão, mais primitiva e bruta. O contato direto com o demoníaco que vive não só dentro de nossas casas (ou no mercadinho que compramos pra gente) mas em nossas cabeças.
O filme é todo pontuado com imagens que sugerem explicitamente os negros e a escravidão. A casa de Helena e de Otávio tem estátuas africanas decorando a sala e a cozinha. A filha pequena deles encena uma peça cujo tema principal é a libertação dos escravos no Brasil. A empregada, claro, é negra e no mercadinho, durante as arrumações iniciais, Helena e Otávio encontraram correntes e grilhões que parecem ter surgido da época pré-princesa Isabel.
Não sei se essas imagens todas, jogadas na cara do espectador como se gritassem "olhem, estou aqui, prestem atenção em mim", servem como uma figuração para algo maior, para um sentido obscuro da obra que não sei se consigo ler agora. Precisaria rever o filme. Mas não duvido que haja uma estranha e bizarra associação entre os nossos tempos e a escravidão. O brasileiro ordinário, comum, chão, classe média que contrata sua empregada por menos de um salário mínimo, que tem lá suas estátuas africanas decorando a sala, mas que não sabe como lidar com a garra de um animal que surge detrás de sua parede. Com a corrente enorme que servia para prender um possível trabalhador-escravo que empilhava frutas no mercadinho do dono anterior. Com a empregada negra que, dia após dia, substitui a função da mãe em acompanhar a filha. Chega até a montar a árvore de Natal sem a presença da mãe.
São hipóteses que não sei se valem, pois não encontrei material o suficiente para provar qualquer linha de raciocínio desse tipo. Mas são sugestões válidas. O filme, entretato, me parece ter outra relação que faz contato direto com a realidade classe média que todos nós vivemos sem perceber: a necessidade de entrarmos em contato com o primitivo. Helena, assim que encontra a garra peluda escondida atrás da parede, leva para casa e se tranca no quarto. Tal qual G.H. no romance de Clarice Lispector, que busca essa experiência extra-sensorial no quarto de sua antiga empregada, onde, na parede, ela fazia desenhos primitivos. E a questão da barata, claro, quando G.H. come a barata, "a fauna alada" nas palavras da protagonista. Ou, para citar outra obra da autora, no conto "Amor", em que a dona de casa busca seu escapismo no jardim botânico. Ou no olhar do búfalo no conto homônimo - aliás, voltando ao filme, no museu de bichos empalhados, Otávio se depara com uma visão bem parecedia com a do olhar do búfalo.
O sangue, mais espesso que o normal e tendendo ao preto, que escorre do nariz de Helena enquanto a sua cunhada grita imitando um morcego é a real manifestação do demoníaco na família. É a maneira como a nossa cabeça atormentada mais gosta de se expressar, causando choque e comoção daqueles "entes queridos" que estão em sua casa para celebrar o nascimento de Cristo.
Trabalhar Cansa é uma produção que tem um único ponto falho: a atuação da protagonista. Me parece que Helena Albergaria (que desconheço, admito) é aquela atriz de teatro que, quando se vê diante de uma câmera, se perde e se despedaça em atuações ultradramáticas para um público que não quer saber de exageros da dramaturgia. Não funciona para cinema. Mas todo o resto, do enredo muito bem amarrado ao clima constante de terror, é uma resposta àqueles que dizem que o cinema nacional está aquém do cinema argentino - essa discussão eu vejo cada vez mais e me irrita. Trabalhar Cansa é um dos grandes filmes deste 2011.
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